Guia de leitura
Livros como Piranesi
Piranesi não é um livro de fantasia comum, e por isso as listas de “parecidos” costumam errar. O que o torna único é um narrador que confia no mundo mais do que deveria e um lugar que é, ele próprio, o mistério. Estas escolhas partem daí.
Deste site · Book Three
The Forty-Year Passenger
Edição em inglês
Se o que prendeu você em Piranesi foi alguém mapeando com paciência um lugar que não tem fim, The Forty-Year Passenger é o livro deste site para ler depois. Abel Quist mapeia um trem há quinze anos, contando corredores e registrando o que vê, até encontrar uma marca de agrimensor datada de 1981: outra pessoa mapeia o trem há muito mais tempo, e muito melhor. Frio, exato e moralmente difícil. Só existe em inglês, no Kindle e em papel.
Resposta rápida
Os melhores livros como Piranesi são os que repetem o truque do narrador: Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, e O terceiro tira, de Flann O’Brien. Para o lugar impossível, leia Aniquilação e as Ficções de Borges (comece por “A biblioteca de Babel”). Para a versão em português de um labirinto de papel, Todos os nomes, de Saramago. O circo da noite e Circe aparecem em toda lista, mas são outro tipo de livro.
O que Piranesi faz que quase nenhum livro faz
Piranesi vive numa Casa de salões infinitos cheios de estátuas, com marés que sobem pelas escadas, e registra tudo num diário com a paciência de um cientista. Só existe mais uma pessoa viva ali, o Outro, que o visita duas vezes por semana. Aos poucos, o leitor percebe coisas que o narrador não percebe. É esse descompasso, e não a magia, que faz o livro funcionar.
Por isso as listas que recomendam “fantasia com cenário bonito” decepcionam. As escolhas abaixo estão organizadas pelo que você procura: o narrador que não sabe a verdade, o lugar que é o próprio enigma, ou a versão em língua portuguesa desse labirinto.
O narrador que não sabe o que você já desconfia
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Não me abandone jamais
Kathy H. relembra os anos em Hailsham, um colégio interno inglês com lago, bosques e muita aula de arte, com uma voz tão calma que você demora a perceber o que ela está contando. Como Piranesi, Kathy aceita as regras do mundo em que foi criada e narra o horror sem nunca chamá-lo pelo nome. É o livro mais próximo do efeito de Clarke: a tristeza vem justamente da serenidade de quem narra.
- Pule se
- você quer maravilhamento; este é um livro sobre aceitação, e dói.
Conferido em: Companhia das Letras
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O terceiro tira
Um narrador que confessa logo no início ter participado de um assassinato vai parar numa delegacia rural onde nada funciona como deveria: policiais obcecados por bicicletas, um tempo que não passa, notas de rodapé sobre um filósofo delirante. É cômico, absurdo e cada vez mais inquietante. Para leitores de Piranesi, o interesse está em descobrir, junto com o narrador, que tipo de lugar é aquele. Em formato de bolso, é fácil de achar em sebos.
- Pule se
- o humor irlandês absurdo, cheio de digressões, cansa você depressa.
Conferido em: Touché Livros, Revista Signótica (UFG)
O lugar que é o próprio enigma
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Aniquilação
Uma bióloga integra a décima segunda expedição à Área X, uma região isolada onde a natureza voltou a tomar conta e as expedições anteriores terminaram mal. Ela narra em forma de diário, como Piranesi, e o lugar é mais importante que qualquer personagem: uma estrutura que desce para dentro da terra, com palavras escritas nas paredes por algo vivo. Curto, estranho, e é o primeiro de uma trilogia.
- Pule se
- você gostou da ternura de Piranesi; aqui o tom é de ameaça constante.
Conferido em: Intrínseca
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Ficções
Se a Casa de Piranesi tem um antepassado, é a biblioteca de “A biblioteca de Babel”: galerias hexagonais que se repetem ao infinito, bibliotecários que passam a vida procurando o livro que explicaria todos os outros. O volume reúne ainda “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “O jardim de veredas que se bifurcam”. São contos curtos e densos, para ler um de cada vez e pensar sobre ele por dias.
- Pule se
- você quer personagens e emoção; Borges escreve ideias, não pessoas.
Conferido em: Companhia das Letras
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A invenção de Morel
Um fugitivo se esconde numa ilha supostamente deserta e registra, num diário, a chegada de visitantes que parecem não vê-lo e que repetem os mesmos gestos e conversas. É a mesma situação de Piranesi: um homem sozinho, um lugar com regras que ele tenta entender por escrito, e uma verdade que o leitor e o narrador vão montando juntos. Tem pouco mais de cem páginas e foi prefaciado por Borges no original.
- Pule se
- você não gosta de livros em que a explicação importa mais que a emoção.
Conferido em: Skoob
O labirinto em língua portuguesa
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Todos os nomes
O sr. José é um funcionário discreto da Conservatória Geral do Registo Civil, um arquivo tão vasto que os mortos vão sendo empurrados para os fundos, onde é possível se perder. Um dia, um verbete de uma desconhecida cai nas mãos dele, e ele decide encontrá-la. Para leitores de Piranesi, é o prazer de um homem solitário e metódico explorando um edifício que parece não ter fim, com a prosa longa e irônica de Saramago.
- Pule se
- a pontuação de Saramago, com diálogos sem travessão, afasta você.
Conferido em: Companhia das Letras
Os dois que vão indicar para você
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O circo da noite
Um circo que só abre à noite, com tendas em preto e branco, palco de um duelo entre dois jovens ilusionistas. Aparece em toda lista ao lado de Piranesi pela atmosfera e pelas descrições de lugares impossíveis, e é um belo livro de ambientação. Mas é um romance de amor com vários narradores, não um enigma com um narrador só. Leia se o que você amou foram as imagens da Casa.
- Pule se
- o que prendeu você foi o mistério; aqui ele é secundário.
Conferido em: Intrínseca
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Circe
A feiticeira da Odisseia, filha de Hélio, conta a própria vida desde o exílio numa ilha. A ligação com Piranesi é real: uma figura isolada, um lugar que vira o mundo inteiro e muita mitologia clássica. Mas é uma recontagem épica, que atravessa séculos e cruza com meio panteão grego, e não um livro fechado num só lugar. Excelente, só que por outros motivos.
- Pule se
- você quer um livro curto e concentrado; este é uma saga.
Conferido em: Skoob, Le Monde Diplomatique Brasil
Perguntas frequentes
O que os leitores perguntam
Piranesi tem edição em português?
Sim. Piranesi saiu no Brasil pela Morro Branco, com tradução de Heci Regina Candiani.
Piranesi é continuação de Jonathan Strange & Mr Norrell?
Não. É um romance independente de Susanna Clarke, bem mais curto, e pode ser lido sem conhecer o livro anterior.
Qual livro é mais parecido com Piranesi?
Pelo efeito do narrador, Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro. Pelo lugar infinito, “A biblioteca de Babel”, em Ficções, de Borges. Há mais casas e corredores impossíveis no nosso guia de livros sobre espaços liminares.
