Guia de leitura

Livros como Piranesi

Piranesi não é um livro de fantasia comum, e por isso as listas de “parecidos” costumam errar. O que o torna único é um narrador que confia no mundo mais do que deveria e um lugar que é, ele próprio, o mistério. Estas escolhas partem daí.

Publicado por Simran Mehta Atualizado em

Cover of The Forty-Year Passenger by Simran Mehta: cream serif lettering on deep oxblood, cut through by a lit train.

Deste site · Book Three

The Forty-Year Passenger

Edição em inglês

Se o que prendeu você em Piranesi foi alguém mapeando com paciência um lugar que não tem fim, The Forty-Year Passenger é o livro deste site para ler depois. Abel Quist mapeia um trem há quinze anos, contando corredores e registrando o que vê, até encontrar uma marca de agrimensor datada de 1981: outra pessoa mapeia o trem há muito mais tempo, e muito melhor. Frio, exato e moralmente difícil. Só existe em inglês, no Kindle e em papel.

Resposta rápida

Os melhores livros como Piranesi são os que repetem o truque do narrador: Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, e O terceiro tira, de Flann O’Brien. Para o lugar impossível, leia Aniquilação e as Ficções de Borges (comece por “A biblioteca de Babel”). Para a versão em português de um labirinto de papel, Todos os nomes, de Saramago. O circo da noite e Circe aparecem em toda lista, mas são outro tipo de livro.

O que Piranesi faz que quase nenhum livro faz

Piranesi vive numa Casa de salões infinitos cheios de estátuas, com marés que sobem pelas escadas, e registra tudo num diário com a paciência de um cientista. Só existe mais uma pessoa viva ali, o Outro, que o visita duas vezes por semana. Aos poucos, o leitor percebe coisas que o narrador não percebe. É esse descompasso, e não a magia, que faz o livro funcionar.

Por isso as listas que recomendam “fantasia com cenário bonito” decepcionam. As escolhas abaixo estão organizadas pelo que você procura: o narrador que não sabe a verdade, o lugar que é o próprio enigma, ou a versão em língua portuguesa desse labirinto.

O narrador que não sabe o que você já desconfia

  1. Não me abandone jamais Kazuo Ishiguro

    Título original: Never Let Me Go

    Companhia das Letras · 2016 · Trad. Beth Vieira

    Kathy H. relembra os anos em Hailsham, um colégio interno inglês com lago, bosques e muita aula de arte, com uma voz tão calma que você demora a perceber o que ela está contando. Como Piranesi, Kathy aceita as regras do mundo em que foi criada e narra o horror sem nunca chamá-lo pelo nome. É o livro mais próximo do efeito de Clarke: a tristeza vem justamente da serenidade de quem narra.

    Pule se
    você quer maravilhamento; este é um livro sobre aceitação, e dói.

    Conferido em: Companhia das Letras

  2. O terceiro tira Flann O’Brien

    Título original: The Third Policeman

    L&PM Pocket · 2006

    Um narrador que confessa logo no início ter participado de um assassinato vai parar numa delegacia rural onde nada funciona como deveria: policiais obcecados por bicicletas, um tempo que não passa, notas de rodapé sobre um filósofo delirante. É cômico, absurdo e cada vez mais inquietante. Para leitores de Piranesi, o interesse está em descobrir, junto com o narrador, que tipo de lugar é aquele. Em formato de bolso, é fácil de achar em sebos.

    Pule se
    o humor irlandês absurdo, cheio de digressões, cansa você depressa.

    Conferido em: Touché Livros, Revista Signótica (UFG)

O lugar que é o próprio enigma

  1. Aniquilação Jeff VanderMeer

    Título original: Annihilation

    Intrínseca · 2014 · Trad. Braulio Tavares

    Uma bióloga integra a décima segunda expedição à Área X, uma região isolada onde a natureza voltou a tomar conta e as expedições anteriores terminaram mal. Ela narra em forma de diário, como Piranesi, e o lugar é mais importante que qualquer personagem: uma estrutura que desce para dentro da terra, com palavras escritas nas paredes por algo vivo. Curto, estranho, e é o primeiro de uma trilogia.

    Pule se
    você gostou da ternura de Piranesi; aqui o tom é de ameaça constante.

    Conferido em: Intrínseca

  2. Ficções Jorge Luis Borges

    Título original: Ficciones

    Companhia das Letras · 2007 · Trad. Davi Arrigucci Jr.

    Se a Casa de Piranesi tem um antepassado, é a biblioteca de “A biblioteca de Babel”: galerias hexagonais que se repetem ao infinito, bibliotecários que passam a vida procurando o livro que explicaria todos os outros. O volume reúne ainda “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “O jardim de veredas que se bifurcam”. São contos curtos e densos, para ler um de cada vez e pensar sobre ele por dias.

    Pule se
    você quer personagens e emoção; Borges escreve ideias, não pessoas.

    Conferido em: Companhia das Letras

  3. A invenção de Morel Adolfo Bioy Casares

    Título original: La invención de Morel

    Biblioteca Azul · 2016

    Um fugitivo se esconde numa ilha supostamente deserta e registra, num diário, a chegada de visitantes que parecem não vê-lo e que repetem os mesmos gestos e conversas. É a mesma situação de Piranesi: um homem sozinho, um lugar com regras que ele tenta entender por escrito, e uma verdade que o leitor e o narrador vão montando juntos. Tem pouco mais de cem páginas e foi prefaciado por Borges no original.

    Pule se
    você não gosta de livros em que a explicação importa mais que a emoção.

    Conferido em: Skoob

O labirinto em língua portuguesa

  1. Todos os nomes José Saramago

    Companhia das Letras · 2020

    O sr. José é um funcionário discreto da Conservatória Geral do Registo Civil, um arquivo tão vasto que os mortos vão sendo empurrados para os fundos, onde é possível se perder. Um dia, um verbete de uma desconhecida cai nas mãos dele, e ele decide encontrá-la. Para leitores de Piranesi, é o prazer de um homem solitário e metódico explorando um edifício que parece não ter fim, com a prosa longa e irônica de Saramago.

    Pule se
    a pontuação de Saramago, com diálogos sem travessão, afasta você.

    Conferido em: Companhia das Letras

Os dois que vão indicar para você

  1. O circo da noite Erin Morgenstern

    Título original: The Night Circus

    Intrínseca · 2012 · Trad. Claudio Carina

    Um circo que só abre à noite, com tendas em preto e branco, palco de um duelo entre dois jovens ilusionistas. Aparece em toda lista ao lado de Piranesi pela atmosfera e pelas descrições de lugares impossíveis, e é um belo livro de ambientação. Mas é um romance de amor com vários narradores, não um enigma com um narrador só. Leia se o que você amou foram as imagens da Casa.

    Pule se
    o que prendeu você foi o mistério; aqui ele é secundário.

    Conferido em: Intrínseca

  2. Circe Madeline Miller

    Planeta (Minotauro) · 2019 · Trad. Isadora Prospero

    A feiticeira da Odisseia, filha de Hélio, conta a própria vida desde o exílio numa ilha. A ligação com Piranesi é real: uma figura isolada, um lugar que vira o mundo inteiro e muita mitologia clássica. Mas é uma recontagem épica, que atravessa séculos e cruza com meio panteão grego, e não um livro fechado num só lugar. Excelente, só que por outros motivos.

    Pule se
    você quer um livro curto e concentrado; este é uma saga.

    Conferido em: Skoob, Le Monde Diplomatique Brasil

Perguntas frequentes

O que os leitores perguntam

Piranesi tem edição em português?

Sim. Piranesi saiu no Brasil pela Morro Branco, com tradução de Heci Regina Candiani.

Piranesi é continuação de Jonathan Strange & Mr Norrell?

Não. É um romance independente de Susanna Clarke, bem mais curto, e pode ser lido sem conhecer o livro anterior.

Qual livro é mais parecido com Piranesi?

Pelo efeito do narrador, Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro. Pelo lugar infinito, “A biblioteca de Babel”, em Ficções, de Borges. Há mais casas e corredores impossíveis no nosso guia de livros sobre espaços liminares.