Guia de leitura

Livros com narrador não confiável

O leitor brasileiro já conhece o narrador não confiável da escola, mesmo que não saiba o nome: é Bentinho. Mas há vários tipos de narrador que engana, e eles pedem livros diferentes.

Publicado por Simran Mehta Atualizado em

Cover of The Forty-Year Passenger by Simran Mehta: cream serif lettering on deep oxblood, cut through by a lit train.

Deste site · Book Three

The Forty-Year Passenger

Edição em inglês

Em The Forty-Year Passenger, Abel Quist conta a história de quinze anos num trem em que nunca pagou o preço de abrir uma porta, e chama isso de decência. Entre os capítulos dele correm os cadernos de Verity Sloane, que pagou com a vida de outras pessoas e tem uma justificativa pronta. O leitor precisa decidir em quem acreditar. Só existe em inglês, no Kindle e em papel.

Resposta rápida

Os melhores livros com narrador não confiável começam em casa: Dom Casmurro, em que nunca sabemos se Capitu traiu, e S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Para o narrador que engana a si mesmo, Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro. Para o que engana você de propósito, Lolita e O assassinato de Roger Ackroyd. Para quem não consegue ver tudo, Quarto e Onde está Elizabeth?.

O que é um narrador não confiável

É o narrador em cujo relato o leitor não pode confiar inteiramente: porque ele mente, porque se engana, ou porque não tem condições de entender o que vê. O termo foi criado pelo crítico Wayne C. Booth em 1961, mas a técnica é muito mais antiga. E o Brasil tem o exemplo mais discutido da língua: durante décadas, Dom Casmurro foi lido como a história de uma esposa adúltera, até que a crítica passou a desconfiar de quem conta.

Os livros abaixo estão divididos em três tipos: o narrador que engana a si mesmo, o que engana o leitor de propósito, e o que não consegue enxergar a situação inteira, por doença, idade ou infância.

Os brasileiros: por onde começar

  1. Dom Casmurro Machado de Assis

    Penguin-Companhia · 2016

    Bento Santiago, já velho e sozinho, escreve para “atar as duas pontas da vida” e conta como se apaixonou por Capitu, casou-se com ela e passou a acreditar que ela o traiu com o melhor amigo, Escobar. Tudo o que sabemos vem dele, e Machado deixa espaço suficiente para duvidar de cada prova. Se você leu na escola, releia procurando o ciúme do narrador em vez da culpa de Capitu: é outro livro.

    Pule se
    você quer uma resposta no final; Machado nunca dá.

    Conferido em: Companhia das Letras

  2. S. Bernardo Graciliano Ramos

    Record · 2019

    Paulo Honório, um fazendeiro que subiu na vida à força, decide escrever a própria história depois da morte da mulher, Madalena. Ele conta tudo com franqueza bruta, mas o leitor percebe antes dele o que o ciúme e a vontade de posse fizeram com ela. É o narrador que se justifica enquanto se condena. Seco, curto e uma das melhores aulas de narrador não confiável escritas em português.

    Pule se
    a aspereza do sertão de Graciliano não é para você; a linguagem é tão dura quanto o narrador.

    Conferido em: Editora Record

O narrador que engana a si mesmo

  1. Os vestígios do dia Kazuo Ishiguro

    Título original: The Remains of the Day

    Companhia das Letras · Trad. José Rubens Siqueira

    Stevens, mordomo de uma grande casa inglesa, faz uma viagem de carro nos anos 1950 para visitar a antiga governanta, Miss Kenton, e vai relembrando décadas de serviço a um lorde que ele insiste em defender. Ele nunca mente diretamente: só omite, suaviza e muda de assunto. O leitor entende aos poucos o que ele sacrificou e por quem. É o exemplo perfeito de narrador que se protege da própria história.

    Pule se
    você não tem paciência para um livro em que quase nada acontece na superfície.

    Conferido em: Companhia das Letras

O narrador que engana você de propósito

  1. Lolita Vladimir Nabokov

    Alfaguara · 2026 · Trad. Sergio Flaksman

    Humbert Humbert escreve sua defesa com uma prosa tão brilhante que o leitor corre o risco de esquecer o que ele está contando: os abusos contra Dolores Haze, uma menina de doze anos. O livro é um teste de leitura. A beleza das frases é a arma do narrador, e perceber isso é o ponto. A nova edição da Alfaguara, lançada em 2026, mantém a tradução de Sergio Flaksman.

    Pule se
    o tema do abuso infantil é um gatilho para você; o livro é narrado pelo abusador.

    Conferido em: O Povo

  2. O assassinato de Roger Ackroyd Agatha Christie

    Título original: The Murder of Roger Ackroyd

    Globo Livros · Trad. Renato Rezende

    Um industrial é assassinado numa vila inglesa, e Hercule Poirot, aposentado e cultivando abóboras, volta à ativa. O livro causou escândalo quando saiu, em 1926, pela maneira como joga com quem conta a história, e em 2013 foi eleito pelos escritores policiais britânicos o melhor romance policial de todos os tempos. Não leia nada sobre ele antes. É o livro para quem quer ser enganado com elegância.

    Pule se
    você já sabe o final; o livro depende inteiramente da surpresa.

    Conferido em: BBC News Brasil / O Povo

  3. Garota exemplar Gillian Flynn

    Título original: Gone Girl

    Intrínseca · 2013 · Trad. Alexandre Martins

    No dia do quinto aniversário de casamento, Amy Dunne desaparece, e o marido, Nick, vira suspeito. O livro alterna a versão dele com o diário dela, e nenhum dos dois conta tudo. É o thriller que popularizou o narrador não confiável para uma geração inteira, e a melhor porta de entrada para quem não quer começar pelos clássicos. Rápido, cruel e muito bem montado.

    Pule se
    você quer a sutileza de Ishiguro; aqui as reviravoltas são o objetivo.

    Conferido em: Intrínseca

O narrador que não consegue ver tudo

  1. Quarto Emma Donoghue

    Título original: Room

    Record · 2011 · Trad. Vera Ribeiro

    Jack tem cinco anos e mora com a mãe num quarto de onde nunca saiu. Para ele, o quarto é o mundo inteiro. O leitor entende logo o que Jack não pode entender: que a mãe está presa ali. Ele não mente, apenas não tem como saber. É um dos usos mais comoventes do recurso, porque a limitação do narrador protege o leitor e, ao mesmo tempo, torna tudo mais doloroso.

    Pule se
    histórias de sequestro e cárcere são pesadas demais para você neste momento.

    Conferido em: Editora Record

  2. Onde está Elizabeth? Emma Healey

    Título original: Elizabeth Is Missing

    Record · 2016 · Trad. Bruna Beber

    Maud, com mais de oitenta anos e a memória falhando, tem certeza de que a amiga Elizabeth sumiu. Ninguém acredita nela, e o leitor também não sabe se deve. O mistério do presente se mistura com o desaparecimento da irmã, setenta anos antes. É um narrador não confiável por doença, e o livro faz o leitor sentir na pele a frustração de não poder confiar nas próprias lembranças.

    Pule se
    você cuida de alguém com demência e não quer ler sobre isso agora.

    Conferido em: Editora Record

Perguntas frequentes

O que os leitores perguntam

O que é um narrador não confiável?

É um narrador cuja versão dos fatos o leitor não pode aceitar sem desconfiar, porque ele mente, se engana ou não entende o que vê. O termo foi criado por Wayne C. Booth em 1961.

Dom Casmurro tem narrador não confiável?

É o exemplo mais famoso em português. Bento Santiago acusa Capitu de traição, mas tudo o que sabemos passa pelo ciúme dele, e o livro nunca confirma nem desmente a acusação.

Qual o melhor livro com narrador não confiável para começar?

Se você quer um thriller, Garota exemplar. Se quer um clássico curto, S. Bernardo. Se quer o mais sutil, Os vestígios do dia.

Narrador não confiável e narrador mentiroso são a mesma coisa?

Não necessariamente. Alguns mentem, como Humbert Humbert em Lolita; outros apenas se enganam, como o mordomo de Os vestígios do dia; e outros não têm como saber, como a criança de Quarto. Para narradores que perdem a memória, veja também os livros sobre Alzheimer.