Guia de leitura

Livros sobre espaços liminares

Corredores vazios, salas de espera, prédios que não terminam: a estética dos espaços liminares nasceu na internet, mas a literatura chegou lá muito antes. Aqui estão os livros que fazem isso de verdade, todos com edição brasileira.

Publicado por Simran Mehta Atualizado em

Cover of The Train Between Worlds by Simran Mehta: two figures walking down a dim railway carriage as the walls dissolve into starlight.

Deste site · Book One

The Train Between Worlds

Edição em inglês

The Train Between Worlds é um romance inteiro passado num espaço liminar: você acorda num trem sem nome e sem passado, com uma passagem para Destino: desconhecido, e cada porta abre para outro mistério. O trem parece vivo e reage a quem tenta chegar ao fim da linha. É mais onírico que assustador. Existe só em inglês, no Kindle, e pode ser lido sem os outros dois livros da série.

Resposta rápida

Os melhores livros sobre espaços liminares são aqueles em que o lugar é o enigma: Casa de folhas, de Mark Z. Danielewski, com uma casa maior por dentro que por fora, e Piranesi, de Susanna Clarke. Na literatura brasileira, o conto “O edifício”, de Murilo Rubião, sobre um prédio que nunca termina de ser construído. Para a espera como forma de vida, O deserto dos tártaros e O castelo.

O que é um espaço liminar, na ficção

“Liminar” vem do latim limen, limiar. Espaços liminares são lugares feitos para passar, não para ficar: corredores, escadas, estações, salas de espera, estacionamentos à noite. A estética ficou famosa com fotos de shoppings vazios e com as Backrooms, mas o que ela descreve é antigo: a sensação de estar num lugar que funciona com regras que você não conhece.

Na ficção, um livro liminar não é necessariamente de terror. O que define o gênero é a suspensão: a arquitetura faz algo que os personagens não conseguem explicar, e as regras do lugar importam mais do que o enredo. As escolhas abaixo estão divididas entre o prédio que é o livro e a espera que vira uma vida.

O prédio é o livro

  1. Casa de folhas Mark Z. Danielewski

    Título original: House of Leaves

    DarkSide Books · 2024 · Trad. Adriano Scandolara

    O livro que definiu o gênero. Uma família descobre que a casa nova é um pouco maior por dentro do que por fora, e depois aparece um corredor escuro que não deveria existir. A história chega em camadas, com um documentário, um manuscrito e as notas de rodapé de quem o encontrou, e a própria página se torna labirinto. A edição da DarkSide, colorida e com mais de setecentas páginas, finalmente trouxe o livro para o Brasil.

    Pule se
    você lê no celular ou no transporte; este livro exige papel, mesa e paciência.

    Conferido em: PublishNews, Skoob

  2. Piranesi Susanna Clarke

    Morro Branco · 2021 · Trad. Heci Regina Candiani

    A versão luminosa da mesma ideia. A Casa tem salões infinitos cheios de estátuas e marés que sobem pelas escadas, e o narrador a explora com carinho, sem medo. É o livro liminar para quem não quer terror: o lugar é bonito, o mistério é humano, e a revelação sobre como Piranesi chegou ali é tão triste quanto bem construída. Curto, e fácil de reler.

    Pule se
    você quer a inquietação das fotos liminares; Piranesi é acolhedor.

    Conferido em: Alta Books / Morro Branco, Amazon.com.br

  3. Obra completa Murilo Rubião

    Companhia das Letras · 2010

    O mestre brasileiro do fantástico, reunido num só volume de 33 contos. Para leitores de espaços liminares, comece por “O edifício”: um engenheiro assume a construção de um arranha-céu que não pode parar de subir, andar após andar, muito depois de todos esquecerem para que ele serve. Rubião escreve o absurdo com uma calma de repartição pública, e é exatamente isso que o torna assustador.

    Pule se
    você quer um romance longo; são contos curtos e secos.

    Conferido em: Companhia das Letras, Revista Abusões (UERJ)

  4. Todos os contos Julio Cortázar

    Título original: Cuentos completos

    Companhia das Letras · 2021 · Trad. Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista

    Dois contos aqui são leitura obrigatória para quem gosta do tema. Em “Casa tomada”, dois irmãos vão perdendo cômodos de uma casa enorme para algo que nunca é descrito, e simplesmente fecham as portas. No conto da autoestrada do sul, de Todos os fogos, o fogo, um engarrafamento perto de Paris dura tanto que os motoristas formam uma comunidade. A estrada, que é o espaço de passagem por excelência, vira lugar de morar.

    Pule se
    você quer um único livro com começo, meio e fim; este é um volume grande de contos.

    Conferido em: Skoob

A espera que vira uma vida

  1. O deserto dos tártaros Dino Buzzati

    Título original: Il deserto dei Tartari

    Nova Fronteira · 2005

    O tenente Giovanni Drogo é mandado para o Forte Bastiani, na fronteira com um deserto de onde talvez um dia venham os tártaros. Ele pretende ficar pouco tempo. É o grande romance da sala de espera: um lugar de passagem que prende pela rotina, pela esperança e pelo medo de sair na véspera do acontecimento. Não há nada de sobrenatural, e mesmo assim é um dos livros mais inquietantes desta lista.

    Pule se
    você precisa de ação; o livro é justamente sobre a ação que não chega.

    Conferido em: Skoob

  2. O castelo Franz Kafka

    Título original: Das Schloss

    Companhia das Letras · 2000 · Trad. Modesto Carone

    K., um agrimensor, chega a uma aldeia coberta de neve para trabalhar para o castelo no alto da colina, e passa o livro inteiro tentando chegar lá. Corredores, estalagens, funcionários, recados que não chegam: é a burocracia como espaço liminar. Inacabado, o que combina com ele. A tradução de Modesto Carone, direto do alemão, é a referência no Brasil.

    Pule se
    a frustração de nunca chegar a lugar nenhum vai irritar você mais do que intrigar.

    Conferido em: Companhia das Letras

  3. Eu que nunca conheci os homens Jacqueline Harpman

    Título original: Moi qui n’ai pas connu les hommes

    Dublinense · 2021 · Trad. Diego Brando

    Quarenta mulheres vivem presas numa jaula subterrânea, vigiadas por guardas que nunca falam. A narradora, a mais jovem, não se lembra de outra vida. Um dia uma sirene toca e a jaula fica aberta. O que vem depois é uma caminhada por uma paisagem vazia, pontuada por outros abrigos iguais, sem ninguém para explicar nada. Virou fenômeno entre leitores brasileiros, e é um dos livros liminares mais tristes que existem.

    Pule se
    você procura um mistério com resposta; o livro recusa explicar o que aconteceu.

    Conferido em: Skoob

Perguntas frequentes

O que os leitores perguntam

O que são espaços liminares?

São lugares de passagem (corredores, estações, salas de espera) vistos num momento em que ninguém está passando. Na literatura, são histórias em que o lugar segue regras que os personagens não entendem e que importam mais do que o enredo.

Existe livro das Backrooms em português?

As Backrooms nasceram como lenda da internet. O livro mais próximo em edição brasileira é Casa de folhas, de Mark Z. Danielewski, lançado pela DarkSide em 2024.

Espaço liminar é terror?

Nem sempre. Casa de folhas é terror, mas Piranesi é quase terno e O deserto dos tártaros não tem nada de sobrenatural. O que une esses livros é a suspensão, não o susto.

Tem algum autor brasileiro de espaços liminares?

Murilo Rubião. O conto “O edifício”, na Obra completa da Companhia das Letras, é sobre um prédio que nunca para de subir. Para mais labirintos, veja nosso guia de livros como Piranesi.